segunda-feira, 29 de junho de 2015

VIAGEM NO TEMPO: cuidado com suas apostas.

Por Amâncio Friaça* 


Time-Travel

Quem nunca sonhou em voltar atrás no tempo e, com os números da Mega-Sena na cabeça, fazer uma aposta e ficar milionário? Ou ir para o passado e consertar uma grande besteira? Ou evitar uma tragédia? A viagem no tempo é daquelas ideias que retornam sempre ao longo da história, que sempre estão presentes nos mitos, na filosofia, na literatura e no cinema. Já equipada com a teoria da relatividade, a mecânica quântica e a gravitação quântica, chegou a vez da ciência dar a sua palavra. Em Uma breve história do tempo, Stephen Hawking discute o assunto no capítulo “Buracos de minhoca e viagem no tempo”. Se houver viagem no tempo, ela só pode ocorrer em determinadas condições, para garantir a estabilidade do próprio universo. Para evitar perigos e paradoxos, Hawking supôs que as viagens no tempo estivessem sujeitas à Conjectura de Proteção da Cronologia. Esta seria uma conspiração das leis físicas que impediria os corpos macroscópicos de transmitirem informação para o passado.
Os mitos também têm a sua versão de Proteção da Cronologia para evitar vazamentos do futuro em direção ao passado. Assim, a profetisa troiana Cassandra só consegue antever a destruição de Troia sob a condição de que ninguém acredite nela. De nada adianta ela implorar a Príamo para destruir o cavalo de Troia. Porém, com mais frequência, as previsões das sibilas (como são conhecidas as profetisas do mundo antigo) apontam para um ponto de bifurcação entre dois futuros possíveis — sua função é impedir que se tome o caminho desafortunado. A bifurcação é outro modo cosmológico de nos protegermos de informações vindas do futuro. No principal santuário grego, Delfos, ouvia-se a sibila local (chamada de pitonisa) para, entre outras coisas, se evitar um futuro terrível. O cenário da bifurcação também está presente entre os profetas da tradição bíblica. Muitas vezes, o objeto da profecia era um futuro a ser afastado por uma ação correta. Esse é o cerne da história de Jonas, que foi tão persuasivo em alertar os habitantes de Nínive sobre sua destruição se persistissem em sua iniquidade que eles fizeram penitência e se corrigiram. Desse modo, Nínive foi poupada, mas Jonas ficou furioso por sua profecia não ter se realizado. Como castigo divino por essa explosão de vaidade, ele acabou engolido pela baleia.
Na Idade Média, a tradição das sibilas está ligada à dos profetas hebraicos. Assim, no pavimento da Catedral de Siena, cuja construção começou no século XIV, dez sibilas do mundo antigo estão representadas junto dos profetas. A Idade Média tem também uma figura profética original, a do Mago Merlin. Merlin aparece na literatura do ciclo arturiano, que começa no século XII. E ele não era chamado de mago, mas de profeta, como no romance do século XIII Merlin: Le Prophéte, atribuído a Robert de Boron. Contudo, Merlin, diferentemente das sibilas, não apenas vê o futuro. Ele viaja ao futuro (e ao passado) e de volta à sua época. Merlin faz verdadeiras viagens no tempo.
Já a Revolução Industrial traz outra novidade. Ela permite que se concretizem velhos sonhos da humanidade: carruagens sem cavalos, máquinas que voam, barcos que se deslocam debaixo d’água. Desse modo, desde o final do século XVIII, surgem o trem, o dirigível (mais tarde, o avião) e o submarino. E A máquina do tempo. Este é o título do romance de H. G. Wells concluído em 1894. É interessante que o primeiro esboço do romance, de 1887, tenha sido um conto intitulado Os argonautas crônicos (aqui crônico é sinônimo de temporal, ligado a Cronos, o deus do tempo). Tratava-se de uma referência à viagem dos argonautas à distante Cólquida — a viagem por excelência da Antiguidade. No século XIX, em que o planeta Terra vai ficando cada vez mais encolhido pelas explorações, a nova Cólquida passa a ser o espaço sideral infinito ou, com ainda mais ousadia, o timescape, um vasto descampado temporal, percorrido por máquinas do tempo.
Mas quais são os princípios de uma máquina do tempo? No século XX, a Teoria da Relatividade Geral de Einstein, aliada à concepção de dimensões extras para o espaço, o hiperespaço, fornece uma possibilidade: os buracos de minhoca. Se houvesse um meio de curvar suficientemente o espaço-tempo, como ocorre nas proximidades de um buraco negro, poderíamos criar um tubo ou “buraco de minhoca” com um comprimento relativamente curto no hiperespaço, mas cujas duas bocas estivessem separadas por muitos anos-luz no espaço tridimensional. O buraco de minhoca é um atalho no hiperespaço entre pontos separados no espaço. Assim, se as bocas do buraco de minhoca estiverem em lados opostos da galáxia, separados por, digamos, 50.000 anos-luz, a duração da viagem dentro do buraco de minhoca poderia ser, digamos, de um ano, pois a extensão é muito menor no hiperespaço.
Stephen Hawking
Bem, o buraco de minhoca é uma máquina do tempo! Pela Teoria da Relatividade, se o intervalo de tempo entre dois eventos, no caso a entrada e a saída do buraco de minhoca, for mais curto que o tempo para a luz se propagar de um ponto a outro, sempre será possível arranjar um referencial em que a saída do buraco de minhoca será anterior à entrada. Desse modo, a travessia pelo buraco de minhoca é também uma viagem para trás no tempo. Por um arranjo conveniente das duas bocas do buraco de minhoca, em que elas estejam próximas e se movendo uma em relação à outra, ele pode ser transformado em uma máquina do tempo.
A viagem no tempo pode acarretar uma série de paradoxos e perigos. É bem conhecido o paradoxo do avô, em que, de volta ao passado, causamos a morte do nosso avô antes de ele gerar descendentes e desse modo nós não existiríamos!!! Uma solução para isso é fornecida pelo cenário da bifurcação, ou das histórias alternativas, uma abordagem defendida pelo físico David Deutsch. Ao viajarmos ao passado cairíamos em um ponto de bifurcação onde entraríamos na linha de tempo de uma história alternativa. Já Stephen Hawking adota outra hipótese, a Conjectura de Proteção da Cronologia, em que as leis físicas conspiram para evitar a viagem do tempo por objetos macroscópicos, como nós.
Pode haver outras formas de Proteção da Cronologia além das imaginadas por Hawking. Em qualquer viagem ao passado, o universo é perturbado pela própria viagem em si. O “efeito borboleta” ilustra como pequenos desvios podem levar a grandes efeitos. Na teoria do caos, o efeito borboleta é a extrema sensibilidade às condições iniciais de um sistema caótico, como por exemplo, a atmosfera. O termo foi usado pela primeira vez pelo meteorologista Edward Lorenz em uma conferência de 1972, mas a referência à borboleta perturbadora é mais antiga, do conto Um som de trovão, de Ray Bradbury (1952). No conto, turistas do tempo viajam à era dos dinossauros. Na volta, encontram o mundo sutilmente mudado — por exemplo, o inglês tem uma escrita fonética. Um dos turistas descobre então uma borboleta da época do Tyrannosaurus rex esmagada na sola da sua bota.
Uma breve história do tempoA Proteção à Cronologia pode funcionar de um modo irônico. Recorrendo mais uma vez à ficção científica, em um episódio da série de TV Painkiller Jane, um neuro, ou seja, um mutante com superpoderes, tem a capacidade de viajar no tempo e se propõe a matar um líder mundial, desencadeando um conflito global. No início, a equipe de Jane, a heroína (ela própria um neuro, dotada do poder de autoregeneração), consegue evitar o assassinato, mas é morta por uma bomba. Prestes a ser capturado, o neuro realiza um salto para trás no tempo e escapa. Aí se retorna ao ponto em que a equipe está para invadir o esconderijo do vilão. Desdobra-se então uma história alternativa. Jane pressente a bomba e a evita. Novamente o neuro escapa e volta a alguns minutos no passado. A cada retorno ao passado, ele se afasta cada vez mais do seu objetivo. O conhecimento do futuro não lhe traz nenhuma vantagem. Ao contrário, quanto mais conhece o futuro, mais ele se afasta do futuro que conhece. Algo semelhante deve ter acontecido em 2014 no Brasil. Um viajante do tempo saltou para antes do jogo Brasil versus Alemanha. Ele tinha um sólido conhecimento do futuro. Alemanha 5, Brasil 1. Fez uma aposta milionária. Para sua satisfação, a Alemanha começou a marcar um gol atrás do outro. Mas logo veio o desespero. Sua viagem no tempo tinha gerado uma onda de improbabilidade altíssima naquele universo. A Alemanha venceu o Brasil por 7 a 1.




Amâncio Friaça é astrônomo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. Trabalha em astrobiologia, cosmologia, evolução química do universo e nas relações entre astronomia, cultura e educação. Foi o responsável pela revisão técnica da edição revista de Uma breve história do tempo, lançada em 2015 pela Intrínseca.

ESTE ARTIGO PERTENCE AO BLOG DA EDITORA INTRÍNSECA. 

Um comentário:

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